O Brasil enfrenta o risco de uma bolha imobiliária?

Nos últimos meses, o tema da bolha imobiliária voltou a ocupar, de forma massiva, os noticiários em todo o País. Impulsionados pelas declarações do economista Robert Shiller – recém-laureado com o Prêmio Nobel de Economia – a imprensa especula a possibilidade do País estar vivendo um fenômeno de bolha, semelhante ao que aconteceu nos Estados Unidos, em 2008.

Robert Shiller foi o primeiro economista a alertar sobre o problema nos Estados Unidos, que desencadearia a crise financeira internacional. Em recente viagem ao Brasil, o economista fez comentários sobre a situação local. Embora tenha sido bastante enfático quanto ao fato de não haver prova objetiva de que exista o início de uma crise por aqui, e ressalvando o fato de que não conhece a fundo o nosso mercado imobiliário, seus comentários tomaram uma enorme proporção.

Em verdade, as únicas semelhanças que o mercado brasileiro mantêm com as condições que ocasionaram no estouro da bolha norte-americana seriam: o crescimento do ritmo de atividade da construção, o acesso das camadas mais carentes da população à moradia e a considerável ascensão dos preços dos imóveis. Já as diferenças são bastante explícitas.

Em primeiro lugar, uma pré-condição essencial para a existência do risco seria a participação expressiva do crédito para aquisição de imóveis na relação com o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Nos Estados Unidos, por exemplo, o financiamento de moradias chegou a um valor equivalente a cerca de 80% do PIB em 2006, um ano antes de os preços começarem a despencar. Enquanto isso, no Brasil, mesmo com todo o crescimento registrado nos últimos anos, o total do crédito imobiliário correspondia, ao final de 2012, a 6,3% do PIB.

Em segundo lugar, é importante destacar que o aumento do preço dos imóveis no País se deu pela recuperação de uma defasagem histórica e não por um processo especulativo. Prova disso é que no universo de financiamentos concedidos ainda prevalece a compra da primeira moradia. Em outras palavras, as pessoas adquirem para morar e não para especular.

É necessário considerar, ainda, as enormes diferenças entre os dois sistemas financeiros. A crise norte-americana estava fortemente baseada na concessão abundante de crédito sem quaisquer critérios. Por isso, o estouro da bolha teve como principal causa a existência de operações financeiras irresponsáveis. Já no Brasil, os agentes financeiros estão regulados por diferentes mecanismos que não permitem que o tomador do empréstimo comprometa mais de 30% da renda familiar com o financiamento do imóvel. Além disso, vale ressaltar o baixo índice de inadimplência acima de 90 dias de atraso, que é inferior a 2%.

Por fim, outro diferencial é que, no caso do Brasil, o agente financeiro se torna responsável pelo crédito concedido até o vencimento do contrato. Isso faz com que os bancos sejam muito mais rigorosos no acompanhamento e concessão do crédito, se comparado com outros países. Nos Estados Unidos, os agentes financeiros concedem o empréstimo e podem repassar os riscos sobre a operação gerada para outros atores, deixando de ser responsáveis pelo crédito concedido. Além disso, as experiências que alcançamos com as diversas crises que tivemos de administrar propiciaram o desenvolvendo de uma série de regulações que garantem a transparência e o melhor funcionamento do nosso sistema financeiro.

*José Carlos Martins é vice-presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC)
*Fonte: CBIC

Imagem fonte: Reprodução

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